O Telescópio Espacial Hubble, da NASA, revelou um mistério na nossa vizinhança cósmica: as galáxias anãs próximas guardam apenas uma pequena fração do oxigênio que suas estrelas produziram. O resultado vem do projeto GLOW (Galaxies Losing Oxygen via Winds), financiado pela NASA e pela National Science Foundation, e foi publicado em 2 de novembro de 2026 na revista The Astrophysical Journal.
A equipe estudou 37 galáxias anãs situadas a até cerca de 22 milhões de anos-luz da Terra — sistemas com poucos milhares a centenas de milhões de estrelas, muito menores que a Via Láctea. Ao comparar a quantidade de oxigênio que as estrelas dessas galáxias produziram ao longo de suas vidas com o oxigênio que ainda permanece em suas estrelas, gás e poeira, os pesquisadores descobriram que elas retiveram apenas entre 4% e 25% do oxigênio, com média de cerca de 11%. Quase todo o oxigênio que restou está no gás, não nas estrelas nem na poeira.
“O oxigênio é produzido pelas estrelas, que estão dentro das galáxias. Sabemos que o oxigênio esteve dentro das galáxias em algum momento no passado, então ele deve ter sido ejetado”, afirmou Grace Telford, coautora do estudo e professora assistente do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Utah. “E, para isso, é preciso a energia de estrelas massivas e explosões de supernova para empurrar o material para fora das galáxias e para o espaço entre elas.”
Ventos galácticos mais fortes do que os modelos previam
As simulações já previam que as galáxias anãs perderiam boa parte do oxigênio, mas as observações mostraram uma perda ainda maior: os ventos galácticos movidos por supernovas parecem remover o oxigênio de galáxias de baixa massa com mais eficiência do que os modelos atuais preveem. O oxigênio foi escolhido como indicador porque é o elemento mais abundante depois do hidrogênio e do hélio, é relativamente fácil de detectar e medir e sua produção é bem compreendida.
“O oxigênio é um dos principais elementos formados pelas estrelas. Ser capaz de rastrear quanto oxigênio é produzido, e quanto dele se distribui dentro e fora das galáxias, nos ajuda a entender a evolução das galáxias”, disse Kristen Wingfield McQuinn, investigadora principal do GLOW, professora associada da Rutgers University e chefe de missão do Centro de Operações Científicas do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman, no Space Telescope Science Institute. “Também nos ajuda a aprender onde e quanto as galáxias enriquecem o espaço entre elas, chamado de meio intergaláctico.”
Para onde foi o oxigênio?
Ainda não se sabe ao certo onde está o oxigênio perdido. Um estudo de 2014, sobre galáxias parecidas com a Via Láctea, encontrou parte desse oxigênio nos halos difusos de gás que cercam as galáxias, o chamado meio circumgaláctico. No caso das galáxias anãs, porém, segue em aberto se a maior parte do oxigênio perdido está nesses halos ou se foi completamente ejetada para o meio intergaláctico.
Para chegar aos números, a equipe usou imagens ópticas de arquivo do Hubble para resolver as populações estelares e reconstruir a história de formação de estrelas de cada galáxia, combinadas com dados do aposentado Telescópio Espacial Spitzer e dos radiotelescópios Very Large Array e Australian Telescope Compact Array. Como próximos passos, McQuinn planeja usar o Telescópio Roman para encontrar galáxias ainda menores e, depois, observá-las com o Hubble e o Telescópio Espacial James Webb. Telford, por sua vez, vai usar o Hubble para observar em detalhe as estrelas massivas que produzem e ejetam o oxigênio.
A imagem que acompanha o estudo mostra NGC 4449, uma galáxia anã irregular a cerca de 12 milhões de anos-luz da Terra, na constelação de Canes Venatici — um dos 37 sistemas analisados pelo projeto GLOW.
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Fontes:
- NASA Science — NASA’s Hubble Uncovers Case of Missing Oxygen in Nearby Dwarf Galaxies
- Rutgers University — Stars Make Oxygen for Small Galaxies. They Lose Most of It.
- Kristen B. W. McQuinn et al., “GLOW. II. A Census of Oxygen in Low-mass Galaxies”, The Astrophysical Journal 1011, 158 (2026)
Crédito da imagem: galáxia anã NGC 4449, fotografada pelo Telescópio Espacial Hubble (NASA, ESA, Hubble Heritage–ESA/Hubble Collaboration, Alessandra Aloisi, STScI/ESA).
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